O outro

Textos — Tags:, , , — Rodrigo Franco @ 19:39

Pitou seu cigarro de cima da pedra e pensou que a luz natural da noite era a descrição mais perfeita de mistério. Do seu mistério. Coçou o pescoço. Fungou para espantar os mosquitos. As tripas reclamaram, apesar de agora estar satisfeito. Há algum tempo não tinha uma caça decente. Bezerros e cabras, uma vez uma jaguatirica chegou a arranhar seu rosto. Mas todos mataram foi sua fome. Não ter pelos, não ter pelos. Como era bom!, mas não se lembrava, apenas apostava que sim, talvez apenas um sentimento de conforto que fica marcado no fundo da memória das memórias, naquilo que tinham em comum, ele e o homem. Não ter aquele calor das noites. Porque aqui todas as noites são de calor.

–      Ffffzzz! – Mosquitaiada do inferno!

Passou a língua nos lábios, sentiu o sangue. Arfando, roçou o pescoço molhado na pedra para saciar a coceira do eriçamento, uma brisa curta mas gostosa vinha das copas das árvores. Pôs-se de barriga para cima. Quente! Sua presa foi fácil. Andando pela mata, sozinha. Olhou as casas, olhos que não o viam, não suspeitavam sua existência. Mas tinham mesmo medo dela. Queria ser visto, ser reconhecido, mas não tal como era. Uma aberração, sem pensamentos alinhados e sem propósito, uma besta abominável. Queria ser o homem, com roupas de casamento e apreço pela pipoca doce dos dias. Desejava ter gosto e não apenas cheiro, porque o mundo cheira mal. Cada coisa… é insuportável. Mas não o homem: tem pastas perfumadas nas essências das flores que nunca poderia tocar sem destruir. Salivando, admirou o que sobrou do corpo nu da jovem vítima. Deu um trago e voltou-se para o riacho. Aprendeu algumas coisas durante os anos, admirava o homem e sabia que tinha alguns cuidados a serem tomados fim de não o prejudicar. Quem sabe um dia seria para sempre diferente?

Acordou ao lado da muda de roupa. Sentiu a ferrugem da noite anterior em sua boca. Onde esteve? Sentia-se bem, disposto. Respirou fundo para incorporar o ar composto da relva pela manhã, o ar puro e gelado. Ao chegar em casa, olhou-se no espelho. Tinha um pouco de sangue nas têmporas, que lavou com água. Ainda tinha tempo para pegar a condução. Deitou na cama, acendeu um cigarro. O teto tinha manchas de umidade, as janelas estavam gastas. Observou a porta, com medo. Duas contas estavam no chão, há dois dias. O aumento, o cargo, o ponto, as compras do mês. Nenhum dia decente. Mas tinha um segredo e sabia que era algo libertador. Chamavam maldição, haviam histórias, mas não levavam em conta a realidade. A realidade era que sentia-se bem. Ontem foi lua cheia, pensou.

–      Contas do inferno! – disse ao ver outro envelope chispar por debaixo da porta.

Todos os dias, um após o outro, os chefes, as cobranças, as mediocridades, mas nada disso importava porque tinha sua maldição. Sabia e agarrava-se a ela. Ao chegar o momento libertava-se dessa corporação macenta e corria livre pelas matas, sem pensar, sem ter que. Foi à banca e comprou o noticiário. Página policial: “jovem morta na Mata do Cachorro”. Dizendo que foi achada pela metade, nua. Um calafrio de gozo percorreu sua caveira, sentiu os pelos eriçarem. Quanto devia ter se deliciado com aquela presa. Não tinha justificativa, não precisava. Quanto desejava ser para sempre sob a lua cheia!

EUpresas, uma homenagem

Ossos — Tags:, , , — Rodrigo Franco @ 10:48

Com a colaboração do Felipe Gonzalez.






 

Onde está UOL?

Ossos — Rodrigo Franco @ 10:24

Repartição e humilhação pública

Ossos — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 14:54

Darci trabalhava numa repartição pública. Era só mais um, entre os 97 funcionários. Era mais um que datilografava documentos, memorandos e comunicados.

- Darci, você é um inútil! Corre, Darci, não temos tempo! – Bradava Sérgio, chefe gordo, atarracado e com o semblante de bodegueiro.

- Mas, chefe, não é por aí, não faça isso. – Respondia Darci em tom choroso e macambúzio.

Os dias se passavam. A sala era quente. O ventilador de teto estava quebrado. As pressões continuavam e o cheiro de cigarro do ambiente provocavam enjôo e desgosto em Darci.

As provocações ultrajantes e o palavreado chulo eram constantes, dia após dia.

- Seu pedra! Estúpido! Fica o dia inteiro aí na cadeira e não faz nada! Vida boa!

- Se colocar uma tartaruga e o Darci lado a lado, a tartaruga ganha!

- Darci, você não anda bem, cara. – Comentou Astolfo, único amigo de repartição de Darci.

Mas num belo dia, Darci resolveu colocar um fim nessa situação de humilhação e selvageria. Foi à casa de seu tio e lá pediu um favor estranho.

No dia seguinte, chegou confiante no escritório do terror. Sérgio não conseguiu bradar seus xingamentos. Darci sacou um lustroso revólver calibre 38. Descarregou o chico preto no peito e na cabeça do chefe.

Justo naquele dia tinham consertado o ventilador, que ajudava a espalhar o sangue pelo ambiente.

Darci colocou a arma ainda quente no colo, virou e tentou correr pra bem longe. Por alguns segundos tinha esquecido que usava cadeira de rodas desde a infância.

Vida em branco

Ossos — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 14:46

Reveillon. Noite especial. Os dentes brancos e cabelos brancos combinavam com a roupa e os sapatos da mesma cor. Curtia a refeição: comida com molho branco e vinho branco pra acompanhar.
Acendeu uma vela branca pra Iemanjá. À meia-noite, botou uma sunga branca e pulou as sete ondas. Passou o resto da noite tomando uma branquinha com os amigos.

Era mais um ano como todos os outros, com todos os dias passando em branco.Todas as terças ia ao centro mesa branca, todos sábados comia feijão branco e todos domingos batia uma bola num campo na Água Branca.

Pra variar votou em branco nas eleições. Ia trabalhar no seu carro branco e ouvia diariamente sua música especial: Asa Branca. Tudo igual.

Resolveu fazer mais um exame de check-up, como em todos os anos anteriores. Chegou o doutor de branco. Dias depois foi pegar o resultado.

Foi pra casa. Cheirou o pó branco. Pegou uma arma branca.

Procurou o doutor de branco de novo. Tingiu o jaleco de vermelho.

Tinha que arrumar algum culpado pela sua doença incurável nos glóbulos brancos.

Um segredo bem guardado

Textos — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 10:21

Era uma tarde quente de quarta-feira. Por isso mesmo, Catita estava de vestido, tão curto que parecia um cinto. A ninfetinha tinha cabelos loiros, que chegavam até seu grande bumbum, apertadinho como alicate. Sua cintura era do tamanho de um hambúrguer e seus peitos rosados apontavam para a lua. Naquele dia estava sem calcinha, pra arejar um pouco as vergonhas.

Apesar de toda essa atmosfera com cheiro de sexo, Catita era vergonhosa e recatada, talvez até enrustida. Tinha 16 anos de idade e tinha sido deflorada pela primeira vez há pouco tempo, pelo seu namoradinho Vargas.

Catita saiu meio escondida. Andou pelas vielas e foi encontrar Venceslau. Mal se encontraram e ela já disse:

- Venceslau, posso te confessar uma coisa? – Perguntou, mordendo os lábios, a menina mulher.

- Claro, sabe que comigo você pode sempre contar. – Respondeu o alto e gordo homem.

- Ah, fico meio sem jeito, mas estou sem dormir, e preciso te contar uma coisa. – Disse a jovem.

Trêmula, Catita tomou um pouco de coragem e abriu seu coração.

- Sabe, não sou mais virgem. E tem mais. Quando perdi meu lacre com meu namorado pensei em você. E penso em você todos os dias.

Na mesma hora, Catita não se agüentou e correu pra agarrar Venceslau. Ele até tentava se desvencilhar mas não conseguia.

- Catita, as pessoas daqui podem ouvir, meu pai está sempre me olhando e… – Disse o homem tentado se afastar mais uma vez.

Mas, depois de tanta insistência, a coisa descambou. Os dois começaram a se beijar e Venceslau fez Catita se abaixar na frente dele. Como se fala no dito popular “ajoelhou, tem que rezar”. E Catita mamou por horas na teta do boi.

Depois desse dia, era ele quem procurava Catita. E mantiveram uma relação de sexo proibido por quase um ano. Pena que o pobre padre Venceslau não poderia confessar a ninguém tudo o que acontecia naquele pequeno e gostoso confessionário.

Assassino???

Textos — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 16:49

Meio dia em ponto. Era uma casinha pequena de um vilarejo esquisito. Estava lá, estirado, esbugalhado, todo cheio de sangue, a faca caída ao seu lado, denunciando como aconteceu o crime. Seus olhos já estavam fechados, e seu coração não batia há tempos.

As tripas e o sangue deixavam o ambiente com um cheiro fétido e nauseante. Enquanto isso, seu algoz lavava as mãos calmamente enquanto curtia aquele momento tão especial.

Eram mãos pequenas, mas mãos cruéis, que esfaqueavam e esganavam sem qualquer pudor.

Passou a mão no telefone, ainda com restos de sangue embaixo das unhas, e deu a notícia aos seus compadres. O serviço havia sido feito. Do outro lado da linha, gritos de prazer e felicidade com o relato.

Meia hora depois encosta um carro preto. Tocam a campainha. Batem na porta. O pessoal todo chega e vai direto para a cozinha. Mal podiam esperar para comer o delicioso frango ao molho pardo que dona Matilde havia preparado. Esse era apenas um dos 25 que ela criava no quintal.

Pra acompanhar, arroz branco, salada e suco de limão.

Uma lição para o buta

Textos — Tags:, , — Rodrigo Franco @ 19:54

Nas calçadas encardidas do centro, ajoelhado trabalhava o Buta. Preferia não falar do seu apelido, que ganhou quando era moleque em um episódio envolvendo égua e barranco na pequena Iracemápolis. Enquanto passava o breu nos lustrosos sapatos dos lustrosos senhores dos bancos, o Buta pensava na sua sorte. Ganhava miséria no seu batente, beijando os pés do clero bancário.

Sentou-se naquele dia um senhor dos mais bem-arrumados dos que se via nas ruelas. Alinhou os sapatos já bem engraxados e disse assim:

Sou seu pai. Não olha pra cima e ouve. Demorei 36 anos para vir aqui lhe contar isso, e deixei você se fodendo a sua vida inteira, porque foi na sua idade que as coisas mudaram pra mim – e eu não daria a minha sorte de graça nem a um filho. Aconteceu que eu era engraxate fodido igual a você, dando brio aqui no centro. Eu era bom. Foi que um homem tropeçou bem em frente ao meu ponto e raspou o seu sapato de couro italiano. Xingou uns nomes, olhou pra mim e falou que alguém tinha passado a perna nele; estava indo pra reunião mais importante da vida, num fabricante de sapatos. Se eu desse um jeito no seu em 4 minutos, me tiraria daquela merda. Antes de terminar a passada, parei e disse que a oportunidade não chegaria pra quem não estivesse preparado e quis garantir pra que ele cumprisse a sua parte, como um homem de palavra. Agora olha pra cima e veja o final da história. Hoje, 27 anos depois, não mais um engraxate. Eu sou presidente de uma multinacional e ganho milhões por ano.

Alguém pôs a mão naquele instante no ombro do Buta, que olhou para trás. – Tem muita fila, amigo? – era o sr. Frederico, um freguês. Quando olhou para frente de novo, encontrou apenas uma nota de cinco, dois reais a menos que preço do serviço. Filho da puta.

Enquanto chutava a caixa, e mandava o sr. Frederico tomar no buta, as últimas palavras do misterioso sr. seu pai ecoavam na sua cabeça: Lembre-se sempre de passar a perna.

Pretejou

Textos — Tags:, , , — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 13:14

Tudo preto. Camisa, blazer, gravata e sapatos, homem de preto. Ele ainda estava de luto devido a morte de seu irmão.

Era um cara bem de vida. Ganhava uma nota preta na empresa, pra descontrair tomava uísque de rótulo preto e, aos fins de semana, botava a faixa preta pra lutar na academia.
Vez ou outra tomava um remédio tarja preta pra ajudar no stress e passava na consulta espiritual com o preto velho.

Era cinco da tarde, ia chover. O céu estava preto. Na empresa, chegaram os fiscais e pediram suborno. O homem de preto se apressou. Apanhou um saco preto e correu. Sabia que teria que ir ao banco sacar uma dinheirama preta.

A tela do caixa eletrônica estava preta, demorou a iniciar o sistema. O homem de preto estava nervoso. Um bandido invadiu o banco, tinha um capuz preto na cabeça. Apontou uma pistola 380 preta para o homem de preto.
Pediu aos gritos o número da conta e a senha do banco. O homem de preto começou a tremer e chorar, disse que não sabia a senha.

Deu branco.

O bandido atirou. O chão ficou vermelho. A vista embaçou. Ficou tudo preto.

Sombria e sexual

Textos — Tags:, , , , — Felipe Gonzalez - www.felipegonzalez.com.br @ 9:45

Jaqueta de couro barata, calça jeans boca-de-sino preta, botas escuras e batom preto. Esse ar sombrio contrastava com a pele de palmito de Juara.

Gótica ao extremo, a mocinha sempre se vestia aos trapos, mas tinha um corpo que era uma verdadeira escultura. Seu rabo era avantajado e seus melões tinham os bicos rosados, sempre apontados para cima.

Embora morasse com os pais, a pequena delícia era solitária, vivia trancada em seu quarto assistindo shows de rock e usando todos tipos de entorpecentes. Alguns diziam que Juara tinha problemas psicológicos, era meio “totoca”, “não batia lé com cré” mas isso nunca foi comprovado oficialmente. Todos os dias, a moça saía à noite para visitar seu namorado e chegava somente na manhã seguinte. A cena matinal era sempre a mesma bizarrice: ela abria a porta de casa com os pés e entrava se arrastando. Suas grandes olheiras mostravam o quanto ela curtia as noites de sexo selvagem com seu macho.

Morécia, sua mãe, sempre ficava preocupada, mas numa noite o susto foi maior. Ouviu, com um copo na parede, Juara dizendo que ia transar com o namorado num cemitério perto de onde moravam.

A ninfeta branquinha saiu para seu encontro. Sua gorda mãe se enrolou com os afazeres domésticos e saiu uma hora depois. Morécia chegou ao cemitério, se escondeu atrás de um arbusto e começou a espiar a filha. A cena era dantesca: Juara estava nua, cavalgando como uma verdadeira amazona no pênis de seu namorado. Ela urrava de prazer enquanto exibia os seus seios grandes e seu corpo tatuado.

Instantes depois, sua mãe começou a chorar e deu um grande jorro de vômito no chão e na própria roupa, não acreditava no que estava vendo. Juara gozou e deu um estridente grito de prazer, saiu de cima de seu namorado e o guardou de novo no caixão, fechou com cadeado e o colocou dentro da tumba. Queria se assegurar que ninguém iria fazer mal algum a seu amado cadáver.

Morécia limpou o vômito e saiu correndo ao encontro da filha.

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