O outro
Pitou seu cigarro de cima da pedra e pensou que a luz natural da noite era a descrição mais perfeita de mistério. Do seu mistério. Coçou o pescoço. Fungou para espantar os mosquitos. As tripas reclamaram, apesar de agora estar satisfeito. Há algum tempo não tinha uma caça decente. Bezerros e cabras, uma vez uma jaguatirica chegou a arranhar seu rosto. Mas todos mataram foi sua fome. Não ter pelos, não ter pelos. Como era bom!, mas não se lembrava, apenas apostava que sim, talvez apenas um sentimento de conforto que fica marcado no fundo da memória das memórias, naquilo que tinham em comum, ele e o homem. Não ter aquele calor das noites. Porque aqui todas as noites são de calor.
– Ffffzzz! – Mosquitaiada do inferno!
Passou a língua nos lábios, sentiu o sangue. Arfando, roçou o pescoço molhado na pedra para saciar a coceira do eriçamento, uma brisa curta mas gostosa vinha das copas das árvores. Pôs-se de barriga para cima. Quente! Sua presa foi fácil. Andando pela mata, sozinha. Olhou as casas, olhos que não o viam, não suspeitavam sua existência. Mas tinham mesmo medo dela. Queria ser visto, ser reconhecido, mas não tal como era. Uma aberração, sem pensamentos alinhados e sem propósito, uma besta abominável. Queria ser o homem, com roupas de casamento e apreço pela pipoca doce dos dias. Desejava ter gosto e não apenas cheiro, porque o mundo cheira mal. Cada coisa… é insuportável. Mas não o homem: tem pastas perfumadas nas essências das flores que nunca poderia tocar sem destruir. Salivando, admirou o que sobrou do corpo nu da jovem vítima. Deu um trago e voltou-se para o riacho. Aprendeu algumas coisas durante os anos, admirava o homem e sabia que tinha alguns cuidados a serem tomados fim de não o prejudicar. Quem sabe um dia seria para sempre diferente?
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Acordou ao lado da muda de roupa. Sentiu a ferrugem da noite anterior em sua boca. Onde esteve? Sentia-se bem, disposto. Respirou fundo para incorporar o ar composto da relva pela manhã, o ar puro e gelado. Ao chegar em casa, olhou-se no espelho. Tinha um pouco de sangue nas têmporas, que lavou com água. Ainda tinha tempo para pegar a condução. Deitou na cama, acendeu um cigarro. O teto tinha manchas de umidade, as janelas estavam gastas. Observou a porta, com medo. Duas contas estavam no chão, há dois dias. O aumento, o cargo, o ponto, as compras do mês. Nenhum dia decente. Mas tinha um segredo e sabia que era algo libertador. Chamavam maldição, haviam histórias, mas não levavam em conta a realidade. A realidade era que sentia-se bem. Ontem foi lua cheia, pensou.
– Contas do inferno! – disse ao ver outro envelope chispar por debaixo da porta.
Todos os dias, um após o outro, os chefes, as cobranças, as mediocridades, mas nada disso importava porque tinha sua maldição. Sabia e agarrava-se a ela. Ao chegar o momento libertava-se dessa corporação macenta e corria livre pelas matas, sem pensar, sem ter que. Foi à banca e comprou o noticiário. Página policial: “jovem morta na Mata do Cachorro”. Dizendo que foi achada pela metade, nua. Um calafrio de gozo percorreu sua caveira, sentiu os pelos eriçarem. Quanto devia ter se deliciado com aquela presa. Não tinha justificativa, não precisava. Quanto desejava ser para sempre sob a lua cheia!












