17 Março 2010
Fita
A gente fica
aqui dentro a gente fica
dentro da gente
existe uma fita
que, ao puxar,
vem náusea, homem, mulher,
pessoas, perdões, verduras, pastilhas,
felizes, lembranças, cachorros, raízes
melindres, engasgos, choros, calos
bile, sermões, repentes, saliva,
e o nó cortadinho
com meu fim
no meio
aqui dentro a gente fica
dentro da gente
existe uma fita
que, ao puxar,
vem náusea, homem, mulher,
pessoas, perdões, verduras, pastilhas,
felizes, lembranças, cachorros, raízes
melindres, engasgos, choros, calos
bile, sermões, repentes, saliva,
e o nó cortadinho
com meu fim
no meio
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25 Fevereiro 2010
Antofagasta
Acordei
nas costas de Antofagasta
sua pele dobrada de pedras
com rostos de homens
sua sombra apagada
em luz de hecatombes
sua vez em milheiros: altítese
Era como deitar o ouvido
no colo do mundo
e olhar o desenho de Deus
pastilhado em sussurro
a haver sustenido
de livrar o que é meu
nas costas de Antofagasta
sua pele dobrada de pedras
com rostos de homens
sua sombra apagada
em luz de hecatombes
sua vez em milheiros: altítese
Era como deitar o ouvido
no colo do mundo
e olhar o desenho de Deus
pastilhado em sussurro
a haver sustenido
de livrar o que é meu
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19 Fevereiro 2010
Mareado
Quero a praia, entre a vida e a morte.
Mareado pela vida,
quero a areia
de meus antepassados,
que me fustigue cais soprados por meu dinheiro,
pois o que tenho
agora não paga
a dívida de ter naufragado nos lençóis do descontinente crasso.
Que a alvorada me julgue em meu bailado
desproporcional,
o que enterro é o mastro comunal
da história.
Mareado pela vida,
quero a areia
de meus antepassados,
que me fustigue cais soprados por meu dinheiro,
pois o que tenho
agora não paga
a dívida de ter naufragado nos lençóis do descontinente crasso.
Que a alvorada me julgue em meu bailado
desproporcional,
o que enterro é o mastro comunal
da história.
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17 Fevereiro 2010
Bicho
Ouviram a dança dos capins dourados
o sol nas margens secas
tirava raízes de outrora
Ouviram a percussão
e as ondas, murmurindo a tez da realidade
Os lagartos que sabiam
foram-se num sinuoso desvio
Soçobraram os queridos peixes
boquiabertos
e os mosquitos beliscaram as águas
para levar dela o último reflexo vivo
Às dez e dezessete grunhiu
por aqui um bicho
que nunca ouvi
mas um dia
hei de saber contar
o sol nas margens secas
tirava raízes de outrora
Ouviram a percussão
e as ondas, murmurindo a tez da realidade
Os lagartos que sabiam
foram-se num sinuoso desvio
Soçobraram os queridos peixes
boquiabertos
e os mosquitos beliscaram as águas
para levar dela o último reflexo vivo
Às dez e dezessete grunhiu
por aqui um bicho
que nunca ouvi
mas um dia
hei de saber contar
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09 Fevereiro 2010
Plano
Vaga mundo
no negro
tenso
Quão seguras suas linhas?,
quanto as minhas?
Quão certa sua cor,
profunda no lenço,
no meu intenso?
A nave que o comanda
sol, lua, vento, fogo, magma,
neve
à parte o plano
porque tudo é imaginário
no negro
tenso
Quão seguras suas linhas?,
quanto as minhas?
Quão certa sua cor,
profunda no lenço,
no meu intenso?
A nave que o comanda
sol, lua, vento, fogo, magma,
neve
à parte o plano
porque tudo é imaginário
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