Pequeno-vivo

por Rodrigo Franco em 1/12/2014

Petrifico nos olhos,
que olhos?, braços
que arranho
ah rhh
Nas unhas um amor que chega
Suado crispado
Feliz
Penso que é feliz entre as cidades
esse meu amor
quero que seja
que eleja mártires
Mas que quebre regras
e os ressuscite em janelas
que são os verdadeiros individros
desse lugar
minha macrosmópole
de pequenos vivos bibelôs.

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Ceviche

por Rodrigo Franco em 1/12/2014

Ceviche dos confins
caudalosos
da região de rios
Pegos passados cortados
Cada gota do limão arde
feridas na boca
assa aftas
conflitos
que havia, que
emenda trouxinhas de parfum
e sobe rente em vapor rodeando
o anzol interior que fisga por entrolhos
falta-lhe, apenas,
nada falta, soberano,
falta-lhe apenas um pouco de sal

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Vilã

por Rodrigo Franco em 6/11/2014

Excessivamente, a palavra
dorme em excesso
Fora doce, fora outrora
palavra de outros tempos
Intento
Mas agora ressona intranquila
em casa de vila
em pequenas casinhas simplórias
beijadas por quintais
quintescentes
Agora é vilã
Se ainda é viva
é porque respira meu ar
meu escasso ar
e me retira
ser
excessivamente

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Julgados

por Rodrigo Franco em 14/09/2014

Julgados, todos
com a corrediça que range
tange dentes, maltratados
estão nos fialhos do chão
Como queriam estar lisos de seu trabalho
que não é trabalho nem cortesia
não sabem que é
Suas palmas são menos que vulgares
menos que sujas
fossem sujas teriam juízo de valor
Tal qual
que nem pena lhes sentem
os que passam
não os sentem
sentem muito

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Inveja

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Invejo os que rezam
não por que acreditam
mas por que sabem
e o que sabem não interessa
Invejo os que choram
por que dão ao tempo seu devido valor
Lavam o tempo
que é o mesmo que chorar
Invejo os que não se importam
por que o que invejo
não lhes importa

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Hulha

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Sou escuro
Há gestos curtos, eufemismos
Há condescendência e  adjetivos doces
Mas a verdade é que sou escuro
De meus ouvidos sai o mais terrível
ramo espinheiro. Negro.
Em meus olhos borbulha o petróleo crasso
do que é fadado ao breu
A minha pele prestes a rasgar por
ocasos infinitos
nos desertos
onde tudo que se vê é o chão batido
e sua dívida a ser cobrada
Meu peito intermitente
não mais ecoa, não mais
E do meu escuro, em aceitação
seguro o carvão com que escrevo
em céu de estrelas
Pois bem:
com as mãos sujas e úmidas
acendo em cada uma delas minha hulha
delas faço fogo

E fogo faz-se em mim

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Histórias

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

As histórias que nos contam são puras
são belas
todas elas; as de injustiça, maldade e dor
as de delicadeza, de porvir
Dos que se atrevem, dos que nunca se dão
dos que escapam da vida por um triz (nós todos)
Nelas
o que se bebe não é sua verdade
nunca sua pretensão (elas todas)
mas seu afeto irresistível
que pouco a pouco nos rouba à morte
nos atirando
de janelas

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Singro

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Áspera tampa de pedra
em meio ao furo do meu amor
Em meio à subida, em meio
a mim me parece que o céu perdeu a cor
e que a vela dos planos perdeu os nós

Duvidaram das gramas, das flores
das plantas; porque eram e são
Dizem que o homem se faz na luta
Hoje buscam lugares inventados para que possam ser
Imagens e números com quem conversar
Mas não tem nada não:
o significado é hoje uma puta

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Dedinhos

por Rodrigo Franco em 30/05/2014

Sinto passagens sob mim
ruelas sôfregas por entre minha massa
janelas lacrimosas em paredes de todas as épocas
Em minha carne dormem
portas secas como a boca de quem nunca abriu
Sinto passarem por mim pessoas e animais
mas nenhum deles fica
como ficam suas passagens
Nem mesmo fantasmas, frios,
porque são estes os que não conseguem passar

Ecos de música e riso e choro
por minhas costas, peito e barriga
por meus ouvidos e becos
Em um deles, dedinhos solares
onde rachaduras são nuances e brisas
quentes, tocam
delicadamente
paredes em pétala, inocentes
por entre todos os túneis acham-me
e fico

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Mundos

por Rodrigo Franco em 2/05/2014

Desde que o mundo é mundo
houve eras

mas não estavam lá

Olhando pra elas,
indivisíveis, vejo-te
como as pedras que não se desfazem

mas pertencem

Meu mundo é torto
como o teu
Desde que o mundo é mundo
nossas poeiras se beijam
Tortos, nossos mundos colidem

Têm-se

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