Nigredo

por Rodrigo Franco em 26/02/2015

A sombra volta
mas é raio
portanto luz
fez-se-luz feliz
falácia
Só os bobos conhecem a
mágica da temperança
e para os lobos resta
a aliança com seu pelo negro
com sua saliva áspera
por seu dentro o que assa
nigredo – não é segredo
é quando chumbo
cachaça

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Enchem-se todos o que poucos têm; têm todos de que nada sabem; paradoxo

por Rodrigo Franco em 25/02/2015

Sigo vigilante
de meus fios, luzes imagens
contrastes e o que tenho em coisa viva
me devora; que tenho em víveres
esgota-se
As dúvidas de todos são minhas
troçam porém consternadas
como gotas que enchem nuvens

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Medo

por Rodrigo Franco em 3/02/2015

Gritam de fora
e vem de dentro
Que
?

Trovejam e no mesmo instante
vogais ancestrais
Que – ê – ê
?

Deixei que caíssem minhas tábuas
e atravessei o vale
Gritam de fora
Que tens tu
? tenho medo

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Veneninho

por Rodrigo Franco em 2/01/2015

E disse que são marionetes
com bocas grandes cortadas
vermelhas
E disse que o tecido que nos cobria
era um sedoso veneno
“Um veneninho bom,
sem semente”
Só o fel
Não há descaso, aqui
O que cabe é maior
que o mundo
mas menor que o seu
São marionetes e esfregam as mãos
pinicam os fios
abrem as bocas
Vão falar

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Pequeno-vivo

por Rodrigo Franco em 1/12/2014

Petrifico nos olhos,
que olhos?, braços
que arranho
ah rhh
Nas unhas um amor que chega
Suado crispado
Feliz
Penso que é feliz entre as cidades
esse meu amor
quero que seja
que eleja mártires
Mas que quebre regras
e os ressuscite em janelas
que são os verdadeiros individros
desse lugar
minha macrosmópole
de pequenos vivos bibelôs.

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Ceviche

por Rodrigo Franco em 1/12/2014

Ceviche dos confins
caudalosos
da região de rios
Pegos passados cortados
Cada gota do limão arde
feridas na boca
assa aftas
conflitos
que havia, que
emenda trouxinhas de parfum
e sobe rente em vapor rodeando
o anzol interior que fisga por entrolhos
falta-lhe, apenas,
nada falta, soberano,
falta-lhe apenas um pouco de sal

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Vilã

por Rodrigo Franco em 6/11/2014

Excessivamente, a palavra
dorme em excesso
Fora doce, fora outrora
palavra de outros tempos
Intento
Mas agora ressona intranquila
em casa de vila
em pequenas casinhas simplórias
beijadas por quintais
quintescentes
Agora é vilã
Se ainda é viva
é porque respira meu ar
meu escasso ar
e me retira
ser
excessivamente

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Julgados

por Rodrigo Franco em 14/09/2014

Julgados, todos
com a corrediça que range
tange dentes, maltratados
estão nos fialhos do chão
Como queriam estar lisos de seu trabalho
que não é trabalho nem cortesia
não sabem que é
Suas palmas são menos que vulgares
menos que sujas
fossem sujas teriam juízo de valor
Tal qual
que nem pena lhes sentem
os que passam
não os sentem
sentem muito

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Inveja

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Invejo os que rezam
não por que acreditam
mas por que sabem
e o que sabem não interessa
Invejo os que choram
por que dão ao tempo seu devido valor
Lavam o tempo
que é o mesmo que chorar
Invejo os que não se importam
por que o que invejo
não lhes importa

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Hulha

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Sou escuro
Há gestos curtos, eufemismos
Há condescendência e  adjetivos doces
Mas a verdade é que sou escuro
De meus ouvidos sai o mais terrível
ramo espinheiro. Negro.
Em meus olhos borbulha o petróleo crasso
do que é fadado ao breu
A minha pele prestes a rasgar por
ocasos infinitos
nos desertos
onde tudo que se vê é o chão batido
e sua dívida a ser cobrada
Meu peito intermitente
não mais ecoa, não mais
E do meu escuro, em aceitação
seguro o carvão com que escrevo
em céu de estrelas
Pois bem:
com as mãos sujas e úmidas
acendo em cada uma delas minha hulha
delas faço fogo

E fogo faz-se em mim

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