Julgados

por Rodrigo Franco em 14/09/2014

Julgados, todos
com a corrediça que range
tange dentes, maltratados
estão no fialhos do chão
Como queriam estar lisos de seu trabalho
que não é trabalho nem cortesia
não sabem que é
Suas palmas são menos que vulgares
menos que sujas
fossem sujas teriam juízo de valor
Tal qual
que nem pena lhes sentem
os que passam
não os sentem
sentem muito

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Inveja

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Invejo os que rezam
não por que acreditam
mas por que sabem
e o que sabem não interessa
Invejo os que choram
por que dão ao tempo seu devido valor
Lavam o tempo
que é o mesmo que chorar
Invejo os que não se importam
por que o que invejo
não lhes importa

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Hulha

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Sou escuro
Há gestos curtos, eufemismos
Há condescendência e  adjetivos doces
Mas a verdade é que sou escuro
De meus ouvidos sai o mais terrível
ramo espinheiro. Negro.
Em meus olhos borbulha o petróleo crasso
do que é fadado ao breu
A minha pele prestes a rasgar por
ocasos infinitos
nos desertos
onde tudo que se vê é o chão batido
e sua dívida a ser cobrada
Meu peito intermitente
não mais ecoa, não mais
E do meu escuro, em aceitação
seguro o carvão com que escrevo
em céu de estrelas
Pois bem:
com as mãos sujas e úmidas
acendo em cada uma delas minha hulha
delas faço fogo

E fogo faz-se em mim

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Histórias

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

As histórias que nos contam são puras
são belas
todas elas; as de injustiça, maldade e dor
as de delicadeza, de porvir
Dos que se atrevem, dos que nunca se dão
dos que escapam da vida por um triz (nós todos)
Nelas
o que se bebe não é sua verdade
nunca sua pretensão (elas todas)
mas seu afeto irresistível
que pouco a pouco nos rouba à morte
nos atirando
de janelas

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Singro

por Rodrigo Franco em 14/08/2014

Áspera tampa de pedra
em meio ao furo do meu amor
Em meio à subida, em meio
a mim me parece que o céu perdeu a cor
e que a vela dos planos perdeu os nós

Duvidaram das gramas, das flores
das plantas; porque eram e são
Dizem que o homem se faz na luta
Hoje buscam lugares inventados para que possam ser
Imagens e números com quem conversar
Mas não tem nada não:
o significado é hoje uma puta

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Dedinhos

por Rodrigo Franco em 30/05/2014

Sinto passagens sob mim
ruelas sôfregas por entre minha massa
janelas lacrimosas em paredes de todas as épocas
Em minha carne dormem
portas secas como a boca de quem nunca abriu
Sinto passarem por mim pessoas e animais
mas nenhum deles fica
como ficam suas passagens
Nem mesmo fantasmas, frios,
porque são estes os que não conseguem passar

Ecos de música e riso e choro
por minhas costas, peito e barriga
por meus ouvidos e becos
Em um deles, dedinhos solares
onde rachaduras são nuances e brisas
quentes, tocam
delicadamente
paredes em pétala, inocentes
por entre todos os túneis acham-me
e fico

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Mundos

por Rodrigo Franco em 2/05/2014

Desde que o mundo é mundo
houve eras

mas não estavam lá

Olhando pra elas,
indivisíveis, vejo-te
como as pedras que não se desfazem

mas pertencem

Meu mundo é torto
como o teu
Desde que o mundo é mundo
nossas poeiras se beijam
Tortos, nossos mundos colidem

Têm-se

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Quartier

por Rodrigo Franco em 24/03/2014

Vira-lata é calçada que espana
pessoas por minuto
nessa tiquetaqueada
pústula; eis que usa-se
tombar latas na cidade
como se houvesse láureas
em ter-se na cara laca,
verniz, óleos no tom do pastel.
Nesse quadrado pequeno embalado
postas de hotel-loja-loja-igreja-muro
postes se oferecem
sente-se cheiro de muro
sirva-se, muro

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Aqui

por Rodrigo Franco em 2/02/2014

Ninguém me tem certo
Nem de perto
ou de longe nas campinas macias
no interior do interior
Do que serve à res o pasto
não serve ao casco
As pontes que pretendo destruir
sobre canais, putos,
e oleodutos
as mesmas que levam
alcançam, se vão
tremem ciosas
O que eu quero está aqui.

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Arregaço

por Rodrigo Franco em 11/12/2013

Dor calcina
pelas ventas e borrachas da epiderme
evolui qual ânsia de eras passadas
qual doença das eras futuras

arregaçando a flor da alma

pelo fio verdezedume puxa
estilete engasgado com embriões
estéreis de vontades, ora cinzas
ou sem outra cor, rasgada que não se vê
sectário em podre sépala em pétalas
que embalam, parvas, negrume
que toca abelhas e portanto o mundo
no que toca o perfume
saber-se no caule
ou ao vento

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