Dedinhos

por Rodrigo Franco em 30/05/2014

Sinto passagens sob mim
ruelas sôfregas por entre minha massa
janelas lacrimosas em paredes de todas as épocas
Em minha carne dormem
portas secas como a boca de quem nunca abriu
Sinto passarem por mim pessoas e animais
mas nenhum deles fica
como ficam suas passagens
Nem mesmo fantasmas, frios,
porque são estes os que não conseguem passar

Ecos de música e riso e choro
por minhas costas, peito e barriga
por meus ouvidos e becos
Em um deles, dedinhos solares
onde rachaduras são nuances e brisas
quentes, tocam
delicadamente
paredes em pétala, inocentes
por entre todos os túneis acham-me
e fico

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Mundos

por Rodrigo Franco em 2/05/2014

Desde que o mundo é mundo
houve eras

mas não estavam lá

Olhando pra elas,
indivisíveis, vejo-te
como as pedras que não se desfazem

mas pertencem

Meu mundo é torto
como o teu
Desde que o mundo é mundo
nossas poeiras se beijam
Tortos, nossos mundos colidem

Têm-se

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Quartier

por Rodrigo Franco em 24/03/2014

Vira-lata é calçada que espana
pessoas por minuto
nessa tiquetaqueada
pústula; eis que usa-se
tombar latas na cidade
como se houvesse láureas
em ter-se na cara laca,
verniz, óleos no tom do pastel.
Nesse quadrado pequeno embalado
postas de hotel-loja-loja-igreja-muro
postes se oferecem
sente-se cheiro de muro
sirva-se, muro

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Aqui

por Rodrigo Franco em 2/02/2014

Ninguém me tem certo
Nem de perto
ou de longe nas campinas macias
no interior do interior
Do que serve à res o pasto
não serve ao casco
As pontes que pretendo destruir
sobre canais, putos,
e oleodutos
as mesmas que levam
alcançam, se vão
tremem ciosas
O que eu quero está aqui.

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Arregaço

por Rodrigo Franco em 11/12/2013

Dor calcina
pelas ventas e borrachas da epiderme
evolui qual ânsia de eras passadas
qual doença das eras futuras

arregaçando a flor da alma

pelo fio verdezedume puxa
estilete engasgado com embriões
estéreis de vontades, ora cinzas
ou sem outra cor, rasgada que não se vê
sectário em podre sépala em pétalas
que embalam, parvas, negrume
que toca abelhas e portanto o mundo
no que toca o perfume
saber-se no caule
ou ao vento

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Ilha anedotária

por Rodrigo Franco em 24/11/2013

Vingar-se das uvas
e de todas as instituições humanas
que emprestam histórias
meras histórias – chamam-nas contos
pois nada mais são antes que se abram as bocas
Que se abrem para nada mais que as próprias uvas

Dizer-se que tudo isso não vale
comprar-se fugas, vazias, inodoras
sem meandros ou sentido
Porque se contadas seriam novamente histórias
novamente engodos
Se choradas seriam drama

Basta que sejam vividas no entreplanos
que sejam espalmadas e adjacentes,
a empurrar o que seja subcutâneo para onde
essas esquisitices se merecem:
que salivem elas mesmas suas anedotas
sem babar os fatos, sempre seguros
sempre a mesma ilha de temperança
na qual não se contam
histórias

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Divisas

por Rodrigo Franco em 14/11/2013

Melindrado fiquei com que me disse
por entre caninos, soprando farinha
que me tinha como nobre
que metia-se toda mundana em minha vida
E digo que não puxei a toalha por ser
quadriculada
ou indecisa, se vermelha, se branca
Das ancestralidades, que não me atém
não convém falar; sobra o prato
o principal,
que parou teso sobre o cedro
equilibrando-se por cima dos sulcos
– mais entre Estados e divisas
E essa cisma contemplo agora, que segundos se passaram
para o arroz
que continua a cair

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Corrente

por Rodrigo Franco em 12/11/2013

Palavra usada, dinheiro
Suja
Corrente & corrimento
das sociedades plurais limitadas anônimas
Sem dolo, porém
se apresenta dobrado nas cavas da alma
nos vincos já cândidos
sem dor
coçam
mas se deixam coçar

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Sarcarrasco

por Rodrigo Franco em 1/11/2013

Balançam as redes nas casas
mas esse não é o mundo que quisemos
Latem cachorrinhos
ao que parece, mas não para nós
não para nos alertar
Latem porque são cachorrinhos
e nós, nossos animais
nossas estimações – mas não é o que quisemos
Ao não pedir
nos entregamos o que fora dado
partimos o que rapartiríamos
Regressam as mariposas e por um momento tudo parece bem
Estão bem os desertos, estão bem os pântanos
Não há que dizer
Sorrimos, portanto
nesse sarcasmo que é desgraça em si
mas não é o que queremos
é o que temos

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Divagar

por Rodrigo Franco em 27/10/2013

Grelhado por persianas
a contento
Derivando de paredes com cal
à beiço, entropeço
com três olhares bucos
O meu, o deles odeies
Por mais que em meus percalços
corra descalço
desvio de teu olhar, agora enfastiado
encosto lentamente meu queixo – Queixana
em meus calcanhares

Sem tirar os olhos da cara da janela
meus treeês olhos; migalhas
é o que caço, atento aos detalhes
mil lares milhares de ossos me atraem
e ti; e a testa vermelha atesta
em que divagares
anos me encontro
com tanta pressa

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