Quartier

por Rodrigo Franco em 24/03/2014

Vira-lata é calçada que espana
pessoas por minuto
nessa tiquetaqueada
pústula; eis que usa-se
tombar latas na cidade
como se houvesse láureas
em ter-se na cara laca,
verniz, óleos no tom do pastel.
Nesse quadrado pequeno embalado
postas de hotel-loja-loja-igreja-muro
postes se oferecem
sente-se cheiro de muro
sirva-se, muro

Sem comentários

Aqui

por Rodrigo Franco em 2/02/2014

Ninguém me tem certo
Nem de perto
ou de longe nas campinas macias
no interior do interior
Do que serve à res o pasto
não serve ao casco
As pontes que pretendo destruir
sobre canais, putos,
e oleodutos
as mesmas que levam
alcançam, se vão
tremem ciosas
O que eu quero está aqui.

Sem comentários

Arregaço

por Rodrigo Franco em 11/12/2013

Dor calcina
pelas ventas e borrachas da epiderme
evolui qual ânsia de eras passadas
qual doença das eras futuras

arregaçando a flor da alma

pelo fio verdezedume puxa
estilete engasgado com embriões
estéreis de vontades, ora cinzas
ou sem outra cor, rasgada que não se vê
sectário em podre sépala em pétalas
que embalam, parvas, negrume
que toca abelhas e portanto o mundo
no que toca o perfume
saber-se no caule
ou ao vento

Sem comentários

Ilha anedotária

por Rodrigo Franco em 24/11/2013

Vingar-se das uvas
e de todas as instituições humanas
que emprestam histórias
meras histórias – chamam-nas contos
pois nada mais são antes que se abram as bocas
Que se abrem para nada mais que as próprias uvas

Dizer-se que tudo isso não vale
comprar-se fugas, vazias, inodoras
sem meandros ou sentido
Porque se contadas seriam novamente histórias
novamente engodos
Se choradas seriam drama

Basta que sejam vividas no entreplanos
que sejam espalmadas e adjacentes,
a empurrar o que seja subcutâneo para onde
essas esquisitices se merecem:
que salivem elas mesmas suas anedotas
sem babar os fatos, sempre seguros
sempre a mesma ilha de temperança
na qual não se contam
histórias

Sem comentários

Divisas

por Rodrigo Franco em 14/11/2013

Melindrado fiquei com que me disse
por entre caninos, soprando farinha
que me tinha como nobre
que metia-se toda mundana em minha vida
E digo que não puxei a toalha por ser
quadriculada
ou indecisa, se vermelha, se branca
Das ancestralidades, que não me atém
não convém falar; sobra o prato
o principal,
que parou teso sobre o cedro
equilibrando-se por cima dos sulcos
– mais entre Estados e divisas
E essa cisma contemplo agora, que segundos se passaram
para o arroz
que continua a cair

Sem comentários

Corrente

por Rodrigo Franco em 12/11/2013

Palavra usada, dinheiro
Suja
Corrente & corrimento
das sociedades plurais limitadas anônimas
Sem dolo, porém
se apresenta dobrado nas cavas da alma
nos vincos já cândidos
sem dor
coçam
mas se deixam coçar

Sem comentários

Sarcarrasco

por Rodrigo Franco em 1/11/2013

Balançam as redes nas casas
mas esse não é o mundo que quisemos
Latem cachorrinhos
ao que parece, mas não para nós
não para nos alertar
Latem porque são cachorrinhos
e nós, nossos animais
nossas estimações – mas não é o que quisemos
Ao não pedir
nos entregamos o que fora dado
partimos o que rapartiríamos
Regressam as mariposas e por um momento tudo parece bem
Estão bem os desertos, estão bem os pântanos
Não há que dizer
Sorrimos, portanto
nesse sarcasmo que é desgraça em si
mas não é o que queremos
é o que temos

Sem comentários

Divagar

por Rodrigo Franco em 27/10/2013

Grelhado por persianas
a contento
Derivando de paredes com cal
à beiço, entropeço
com três olhares bucos
O meu, o deles odeies
Por mais que em meus percalços
corra descalço
desvio de teu olhar, agora enfastiado
encosto lentamente meu queixo – Queixana
em meus calcanhares

Sem tirar os olhos da cara da janela
meus treeês olhos; migalhas
é o que caço, atento aos detalhes
mil lares milhares de ossos me atraem
e ti; e a testa vermelha atesta
em que divagares
anos me encontro
com tanta pressa

Sem comentários

Manifesto unipresente

por Rodrigo Franco em 12/10/2013

Pisou-se a Lua; não estava lá
e das teorias soube-se; não estava lá
Toda verdade foi comprovada outra vez; não estava lá
Quando aplicaram a matemática e os helicópteros
não estive
Em todas as guerras e subterfúgios; não estava lá
Nos grés das perpétuas muralhas, na grande explosão
não pus a mão
Perdeu-se a inocência, ganhou-se perdão; não pude
Aos homens que decidem chamaram grandes; não estava lá
aos que não chamaram, também não fui
aos que chamaram resistência,  não me juntei
não estava, não estive
Que quer que compartilhe
pode apenas se duvidar; existência

Sem comentários

Pano de fundo

por Rodrigo Franco em 12/10/2013

Quantos fios tem o pássaro-da-água cristalina
que se ouve cantar nas módicas terras
da península de Litur?

Que notas move, que os grandes sons
tocam gotas e desfazem pedras. Há muitos milênios toca os olhos
com o bico tingindo a paisagem
Desregrado e mulambo traz o bico sempre molhado
incorreto, dizem,
lento, dizem,
mas seu tempo é o da água
de onde não se vê direto
quem não é pássaro-da-água
E o que não se enxerga, guarda-se no
armário da loucura

Sem comentários